Enquanto o cinema global começa a tatear a complexidade mestiça, o Brasil,um dos países mais miscigenados do mundo, parece caminhar na contramão. O debate sobre a multirracialidade ganha corpo na Europa e nos Estados Unidos, impulsionado por uma nova geração que questiona a Regra de Uma Gota de Sangue. No entanto, por aqui, a experiência parda e mestiça enfrenta um apagamento, muitas vezes orquestrado por setores que deveriam defender seus direitos.
O Despertar Global para a Multirracialidade
Recentemente, a indústria cinematográfica de Hollywood começou a dar sinais de que está atenta a um debate crescente na sociedade: a existência e os conflitos da identidade multirracial.
Um exemplo notável é o filme “A Mulher Rei” (The Woman King, 2022). Nele, o personagem Malik É interpretado por Jordan Bolger E representa justamente as contradições e o “não-lugar” do mestiço. Filho de uma mulher Dahomeana e de um homem português, Malik viaja ao Daomé para conhecer suas raízes. Sua jornada não é de aceitação imediata em nenhum dos lados, mas sim uma exploração visual das nuances de pertencimento e herança colonial que definem muitos indivíduos de origem mestiça. Não por coincidência o personagem é brasileiro.
Há uma cena em que uma das protagonistas encontra Malik e, de forma crítica, comenta que ele não pertence nem à tribo africana, nem à europeia. Jordan Bolger, o ator que o interpretou, expressou seus sentimentos no Instagram ao compartilhar o vídeo dessa cena. Na legenda, mencionou já ter ouvido comentários semelhantes repetidamente em sua vida.
Esse movimento no cinema reflete uma mudança geracional. A Geração Z (nascidos aproximadamente entre 1997 e 2012) está questionando as classificações raciais tradicionais. Espaços online como a página @mixxxedchicks no instagram e outras, mostram que a população mestiça quer partilhar suas questões e fazer parte de uma comunidade que tenha identificação. Jovens com pais de cores diferentes estão perguntando: “Por que devo me identificar apenas como negro se minha mãe é branca?” ou “Por que sou vista como branca em um contexto e negra em outro?”. Eles estão reivindicando o direito de existir na totalidade de sua herança, explorando os conflitos internos e externos de ser mestiço.
Chase Infiniti como Willa Ferguson em Uma Batalha Após a Outra
É nesse contexto que surge o filme Uma Batalha Após a Outra, vencedor do prêmio de Melhor Filme no Oscar em 2026. A personagem Willa Ferguson, interpretada pela jovem atriz Chase Infiniti, divide o protagonismo com Bob Ferguson, vivido por Leonardo DiCaprio, que na trama é apresentado como o pai da garota, fruto da relação com Perfidia Beverly Hills, personagem de Teyana Taylor, uma mulher negra.

Isso mesmo, Willa Ferguson é uma jovem parda, mulata, filha de mãe negra e pai branco. O filme apresenta uma história cheia de conflitos, e o fato de ela ser mestiça tem bastante peso na narrativa, que envolve grupos supremacistas brancos, fetichização da mulher negra e outras tensões. A imagem de Chase Infiniti, com seus cabelos crespos, pele clara e traços mistos, já faz o coração de muitas pessoas mestiças palpitar, pela identificação que provoca.
Ao mesmo tempo, eu, pessoalmente, acho que o filme acaba reforçando narrativas estereotipadas, tanto sobre revolucionários, quanto sobre pessoas negras, relações interraciais e imigrantes. A proposta parece ser criticar e também valorizar esses grupos, mas, na minha leitura, isso não se realiza tão bem ao longo da história. Ainda assim, essa é uma opinião pessoal. Mesmo com essa crítica, é difícil ignorar o que esse filme marca historicamente. Um vencedor do Oscar com uma protagonista mestiça diz muito sobre os novos tempos: imigração, fusão de culturas e de povos… e os mestiços aparecendo cada vez mais como central nessas transformações.
O projeto parditude, em sua atuação nas mídias sociais, já acolheu denúncias de atores e atrizes mestiços que enfrentam dificuldades para conseguir papéis, por serem considerados claros demais para interpretar personagens negros e escuros demais para interpretar personagens brancos. Com a criação de personagens como esses, começamos a perceber um cenário de transformação que irá influenciar todo o mundo.
O Cenário Brasileiro de Negação da Parditude
Esse movimento está se consolidando no campo acadêmico internacional. Fui convidada para participar da Critical Mixed Race Studies Association de 2027, um dos principais espaços globais dedicados ao estudo crítico da multirracialidade.
O grupo reúne pesquisadores, artistas, ativistas e estudantes do mundo inteiro e organiza conferências bienais que chegam a reunir centenas de participantes para discutir experiências, políticas e teorias sobre identidades mestiças. O Critical Mixed Race Studies se define como uma abordagem transnacional e interdisciplinar que analisa criticamente como as categorias raciais são construídas e como as identidades mestiças desafiam essas fronteiras. Fui convidada como pesquisadora brasileira que contribuirá com textos em língua portuguesa. Ou seja, enquanto cresce no mundo a pauta “multirracial”, o Brasil vive um paradoxo. Oficialmente, segundo o IBGE (Censo 2022), a população parda é maioria no país (cerca de 45,3%). No entanto, o debate público e o ativismo muitas vezes buscam, a todo custo, polarizar a discussão entre “brancos” e “negros”, ignorando a vasta e complexa camada mestiça.
Infelizmente, observa-se um movimento em que certas vertentes do ativismo negro negam e silenciam a experiência mestiça. Há uma pressão para que o pardo se autodeclare negro (sob a justificativa da soma “pretos + pardos = população negra” para fins de políticas públicas), se inspirando no passado de Regra de Uma Gota de Sangue dos EUA, sem validar as experiências específicas que a mestiçagem traz.
Trabalhos dedicados a estudar e dar voz aos pardos, como o movimento parditude, que observa a identidade parda mestiça em si mesma, com sua história e dores particulares, são constantemente atacados e negados. Tenta-se impor a narrativa de que falar sobre mestiçagem é uma tentativa de “esbranquiçamento” ou de “fugir da negritude”, quando, na verdade, se trata de uma demanda legítima por reconhecimento.
Inventaram um problema para o pardo no Brasil, agora ele é “negro demais” para ser branco e “branco demais” para ser totalmente aceito em certos espaços de militância negra, vivendo em um limbo.
Era para o Brasil estar dando aula ao mundo sobre mestiçagem, mas está muito ocupado negando a própria realidade.
A questão intrigante é que muitos desses países não têm nada nem próximo do fenômeno de miscigenação brasileiro. Era para nós, brasileiros, estarmos influenciando o mundo e ensinando, a partir da nossa própria realidade, como lidar com a mestiçagem. Mas estamos na contramão, tentando importar classificações binárias dos Estados Unidos que não dão conta da nossa complexidade.
O que vai acontecer é que vamos ficar aguardando que o tema se torne mais popular lá fora para então aderir, seguindo uma tendência em vez de construir a partir da nossa própria experiência. Isso mostra o quanto ainda somos influenciados por uma lógica externa, marcada pelo peso do imperialismo cultural norte-americano. Enquanto aqui criaram uma resistência em reconhecer a experiência mestiça, no exterior ela já é objeto legítimo de produção de conhecimento, debate acadêmico e articulação política.
O que o filme Uma Batalha Após a Outra revela, no fim das contas, é que o mundo está começando a olhar para uma realidade que o Brasil sempre viveu — mas nunca soube, ou nunca quis, nomear plenamente. A presença de uma protagonista mestiça em um filme dessa dimensão não resolve os problemas de representação, nem elimina os estereótipos, mas sinaliza uma mudança de direção.
A pergunta que fica é: o Brasil vai continuar assistindo esse debate de fora ou vai assumir o protagonismo que sua própria história exige?
Conexão Parditude
Se esse tema te interessa, eu te convido pro Conexão Parditude. Um encontro online onde vamos aprofundar tudo isso a partir do meu livro Parditude: Um guia para te resgatar do limbo racial , com palestra, roda de conversa e espaço pra troca.
📅 29 de março (domingo)
⏰ 14h às 18h
🎥 Ao vivo, online







