Parditude não é “neopardo”, e sim parte da realidade histórica brasileira

Recentemente, a Folha publicou a divulgação do livro Raça Social, de Bárbara Carine, apresentado como uma obra que se propõe a debater o conceito de parditude. 

É importante destacar que a análise presente no livro de Carine foi construída sem a leitura do primeiro livro dedicado ao tema, Parditude: Um guia para te resgatar do limbo racial. As duas obras foram lançadas simultaneamente, o que evidencia a ausência de tempo hábil para leitura, interpretação e, somente então, análise. Isso compromete a qualidade da crítica, que passa a se basear em uma ideia presumida do que seria a Parditude, frequentemente associada a períodos históricos em que a miscigenação foi enaltecida de forma distorcida, como no século XX. Essa associação leva à suposição de que a Parditude estaria vinculada ao embranquecimento ou à rejeição da população negra. No entanto, o conteúdo do livro Parditude segue direção oposta: a obra Parditude denuncia o embranquecimento, reconhece com seriedade o racismo presente na sociedade brasileira e valoriza as conquistas históricas do movimento negro.

Carine parte da definição presente no Estatuto da Igualdade Racial, que é recente, de 2010. O texto da lei estabelece que, naquele documento, o termo “negro” será utilizado para se referir ao conjunto de pretos e pardos. Trata-se, portanto, de uma definição operacional e não marca o encerramento do reconhecimento da mestiçagem brasileira nem das produções teóricas sobre pessoas mestiças.

O IBGE, por sua vez, utiliza o termo “pardo” desde o primeiro censo, em 1872, associado à identificação de pessoas de origem mestiça, resultante de diferentes combinações entre grupos como brancos, pretos e indígenas.

Quando a autora afirma que a raça no Brasil é social e estética, há concordância. A Parditude parte desse mesmo princípio de racialização social a partir do fenótipo. No entanto, o livro Parditude demonstra, com base em dados e bibliografia qualificada, que a aparência, a origem familiar e a trajetória social de pessoas pardas produzem experiências que não são plenamente captadas quando a análise se reduz à dicotomia entre branquitude e negritude. 

A acusação de que estaríamos “sequestrando” o termo “pardo” ao reivindicar reconhecimento enquanto grupo mestiço é desonesta. A Parditude representa o exercício legítimo de um grupo social de interpretar a própria experiência. Pessoas pardas são, historicamente, associadas à mestiçagem, o que torna inevitável a pergunta: quem, afinal, está tentando sequestrar essa categoria à revelia da experiência social de quem a vive?

A própria pesquisa Datafolha de 2024 indica que 60% das pessoas autodeclaradas pardas não se consideram negras. Tratar esse dado automaticamente como desinformação ou algo a ser corrigido é uma postura intolerante, pois desconsidera uma forma de identificação legítima já existente em uma realidade brasileira multirracial e plural.

A existência massiva de pardos na população foi central para a construção das políticas de cotas raciais, considerando que cerca de 45% da população brasileira se identifica dessa forma. Nesse sentido, impedir que pessoas pardas participem do debate sobre sua própria condição e sobre os rumos dessas políticas enfraquece o princípio democrático que as sustenta.

A preocupação com fraudes é legítima e deve existir. No entanto, ela não pode servir como justificativa para a produção de suspeita generalizada sobre pessoas pardas. Desde os estudos de Oracy Nogueira, na década de 1950, já se reconhece que pessoas de origem mestiça são percebidas de forma ambígua na sociedade brasileira. Em determinadas situações, pessoas pardas são aceitas como negras; em outras, são chamadas, por exemplo, de “brancas encardidas”. Tratar de forma generalizada os indeferimentos em bancas como fraude pode manter e até agravar injustiças já existentes.

O livro Parditude dedica um capítulo à questão indígena para denunciar o apagamento dessas populações quando pardos são automaticamente agrupados como negros. O apagamento indígena já está acontecendo quando se ignora que o pardo é também mestiço de indígena, para afirmar que todos são negros. No entanto, em seu livro, Carine tenta atribuir esse problema à Parditude, com uma hipótese não comprovada de que, se os pardos forem reconhecidos como mestiços, a porcentagem indígena diminuirá. Isso não possui comprovação empírica e configura um claro deslocamento de responsabilidade: deixa-se de discutir o apagamento atual, já produzido pelo enquadramento pretos+pardos=negros, para falar de um apagamento hipotético.

Dizer “todos somos mestiços” funciona, na prática, da mesma forma que dizer “somos todos humanos”: é uma afirmação abstrata que ignora diferenças reais. Pessoas com fenótipo ambíguo, multirraciais, sabem que ocupam um lugar específico na dinâmica racial brasileira, distinto do de pessoas com traços predominantemente brancos ou negros.

Criar um rótulo como “neopardos” ou “novos pardos” é uma forma de desqualificar previamente um grupo que busca nomear a própria experiência, reduzindo uma discussão complexa a uma caricatura e tentando impedir que outras narrativas sobre a realidade racial ganhem legitimidade. Pessoas mestiças não são algo novo no Brasil, existem desde o início da formação do país. O que é recente é a tentativa de enquadrar a realidade brasileira em uma lógica binária de “brancos” e “negros”, influenciada pelo modelo racial dos Estados Unidos, que não corresponde à complexidade da nossa formação social.

Nenhum campo de debate se mantém vivo sem revisão, crítica e atualização. É responsabilidade das gerações seguintes identificar limites, lacunas e problemas que permanecem sem resposta.

As pessoas pardas que se identificam com a Parditude vivenciam uma experiência de não pertencimento. Não se encaixam plenamente na categoria de negros, nem de brancos, nem de indígenas; não são plenamente aceitas, não são ouvidas e frequentemente são deslegitimadas. Trata-se de uma experiência marcada por rejeição, ambiguidade e apagamento. Reduzir isso a uma estratégia de manutenção de “privilégios” é ignorar o sofrimento concreto que essas pessoas vivem. O livro e o movimento Parditude existem para acolhê-las. Por que incomoda tanto que todas essas pessoas sejam reconhecidas e acolhidas?

O convite que faço é simples: que o debate parta da leitura real do que foi escrito. Que a crítica cite trechos, enfrente argumentos e dialogue com o conteúdo concreto da obra. Esse é o mínimo necessário para um debate sério, para que as pessoas possam ler e formar sua própria opinião sem o uso de falácias e espantalhos em torno da Parditude.

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