As mulheres pardas constituem o maior grupo populacional do Brasil, com aproximadamente 49,3 milhões de pessoas, correspondendo a cerca de 23% da população total do país (Informe MIR, 2023).
No estudo da Fiocruz intitulado “O que dizem os dados sobre a vida das mulheres negras no Brasil”, mulheres pretas e pardas são agrupadas em uma única categoria. A partir de uma revisão detalhada das fontes originais citadas nesse estudo,vamos hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, falar da realidade das mulheres pardas no Brasil.
VIOLÊNCIAS
Somente em 2023, o país registrou mais de 1,2 milhão de casos de violência contra mulheres, incluindo homicídios, feminicídios (tentados e consumados), agressões domésticas, ameaças, perseguições, violência psicológica e estupro.
Ao detalharmos os dados, percebemos que a maior parcela das vítimas fatais de feminicídio é composta por mulheres pardas:
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- Mulheres pardas: 54,3% das vítimas.
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- Mulheres brancas: 35,4% das vítimas.
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- Mulheres pretas: 9,3% das vítimas.
Além disso, 71,1% das vítimas estavam na faixa etária entre 18 e 44 anos, e 64,3% dos assassinatos ocorreram dentro das próprias residências (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2024).
SAÚDE
Em 2022, 54,4% das mulheres que morreram em decorrência de complicações na gravidez ou no parto eram mulheres pardas, enquanto 14% eram mulheres pretas e 29,7% eram mulheres brancas (RASEAM, 2024).
A pesquisa Nascer no Brasil 2, realizada pela Fiocruz, analisou dados de mais de 24 mil mulheres atendidas em 465 maternidades, coletados entre 2020 e 2023. Os resultados indicam que adolescentes ou mulheres com mais de 35 anos, rotuladas “negras”, usuárias do SUS e com baixa escolaridade apresentam maior risco de sofrer violência obstétrica.
No entanto, a divulgação do estudo utilizou o termo “negras” de forma equivocada, sem diferenciar mulheres pretas e pardas. A análise detalhada da amostra mostra:
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- 7.426 mulheres pardas – aproximadamente 59,7% da amostra
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- 3.291 mulheres brancas – cerca de 26,5%
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- 1.716 mulheres pretas – cerca de 13,8%
Esses números evidenciam que a maioria absoluta das mulheres investigadas é parda, demonstrando a preponderância desse grupo entre as usuárias dos serviços obstétricos do SUS consideradas na pesquisa.
FOME
O II VIGISAN (2022) não tratou os grupos de forma separada, utilizando a categoria “pardo/preto”. O estudo apontou que a fome atinge 43% das famílias com renda de até 1/4 do salário mínimo, sendo mais frequente em lares chefiados por mulheres. Mais de 6 em cada 10 domicílios com responsáveis pretos ou pardos (63%) viviam algum grau de insegurança alimentar.

Em 2023, 5,0 milhões de mulheres chefiavam domicílios sozinhas com filhos de até 14 anos, a maioria delas pretas ou pardas (69,2%) , enquanto apenas 533 mil homens estavam na mesma situação. O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM, 2025) não disponibilizou os dados de pretas e pardas separadamente para esses indicadores.

EDUCAÇÃO
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- Analfabetismo: Em 2022, a taxa de analfabetismo entre mulheres pardas e pretas (agregadas) era de 6,9%, mais que o dobro da registrada entre brancas (3,4%).
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- Ensino Superior: Apenas 14,7% das mulheres pardas ou pretas possuem ensino superior completo, contra 29% das brancas. Além disso, em 2020, 33,2% das graduadas desse grupo ocupavam cargos que exigiam apenas nível fundamental ou médio.
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- Conclusão Escolar: Em 2023, apenas 48,3% da população parda ou preta concluiu o ensino médio, contra 61,8% dos brancos. No Nordeste, esse índice cai para 45,6% (Pnad Contínua: Educação, 2023).
Novamente, o Informe do Ministério da Igualdade Racial (2023) e a Pnad não informaram os dados de pretas e pardas de forma individualizada para estes índices


Qual o problema do agrupamento?
1. Distorção Estatística e Numérica O agrupamento de mulheres pretas e pardas em uma única categoria (“negras”) une grupos com pesos demográficos muito distintos. No Brasil, segundo IBGE 2022, as mulheres pardas representam 44,8% da população feminina, enquanto as pretas correspondem a 9,7%. Isso significa que, dentro do bloco agregado, quatro em cada cinco mulheres são pardas.
Na prática, o rótulo “negro” acaba refletindo majoritariamente a realidade parda, mas sob uma nomenclatura associada historicamente à categoria preta (negro e preto são sinônimos linguísticos), apropriando a maioria para servir a narrativas da minoria.
2. Apagamento da Mestiçagem e dos Indígenas Algumas análises foram baseadas na dicotomia “branco/negro”, que é reducionista e ignora a complexidade da formação social brasileira. Esse modelo invisibiliza a experiência das mulheres mestiças e das descendentes de povos indígenas.
Ao tratar o grupo como homogêneo, o Estado e a academia falham em captar a pluralidade de experiências e os diferentes eixos de vulnerabilidade que atravessam cada grupo.
3. Ineficiência em Políticas Públicas A ausência de indicadores individualizados compromete a identificação precisa das demandas de cada grupo. Quando relatórios oficiais, como o Informe MIR (2023) e o RASEAM (2025), omitem a desagregação de dados em índices de educação, renda e saúde, a formulação de políticas públicas baseadas em evidências torna-se limitada. Essa homogeneização estatística sob a categoria “negra” invisibiliza as mulheres pardas, que compõem a maioria da população brasileira e direciona as ações governamentais preferencialmente a segmentos com traços fenotípicos negros mais demarcados.
Sem a transparência de dados segregados, e o reconhecimento das especificidades da população mestiça, a eficácia no combate às desigualdades estruturais que afetam as mulheres pardas permanece prejudicada.







