No artigo “Ninguém aqui é mestiço”, o professor Muniz Sodré afirma que o mestiço é uma “carapuça racial” herdada do luso-tropicalismo de Gilberto Freyre. Diante disso, defende a categoria negro — união de pretos e pardos — como única identidade política legítima de enfrentamento do racismo.
O debate público evolui por meio do embate de perspectivas. Por isso, questiono aqui duas premissas do artigo do professor: a negação da realidade social da mestiçagem e a sua redução a mero artefato arcaico de embranquecimento e justificação da escravidão.
Sodré embaralha conceitos de raça, etnia e nacionalidade, estabelecendo analogias indevidas. Para invalidar a identidade mestiça, argumenta que ela pressupõe a crença em raças. Ora, essa lógica é uma faca de dois gumes: se a mestiçagem é uma ficção, então as identidades “negro”, “branco” e “indígena” — enquanto blocos homogêneos — também são, já que vêm de processos históricos de simplificação étnica e apagamento de alteridades.
Embora raças sejam construções, as hierarquias sociais baseadas na leitura de cores e fenótipos humanos são reais. É fato documentado que nossa sociedade aprendeu a classificar as pessoas em brancos, negros e indígenas, bem como em suas sínteses: mulatos, caboclos, mamelucos — em suma, os pardos. Isso foi corroborado recentemente por pesquisa do cientista político Alberto Carlos Almeida. Seus dados mostram que, enquanto os movimentos negros conseguiram melhorar a imagem dos pretos nas duas últimas décadas, os estigmas sobre os pardos estagnaram. Isso evidencia que a ausência da identidade parda no debate público não apagou o sujeito: apenas o deixou sem nome para lutar contra as suas próprias mazelas.
Sodré também reduz o debate à visão de Gilberto Freyre, omitindo perspectivas como a de Darcy Ribeiro, que conciliou o elogio à mestiçagem com a denúncia do racismo das elites. Esquece também que Joel Rufino e Milton Santos, embora defendessem a união política sob o rótulo “negro”, rejeitavam a importação acrítica do binarismo racial americano.
Seria o mestiço, afinal, uma mera “carapuça racial” por seus usos no passado? Cabe lembrar que autores como Nina Rodrigues viram na mestiçagem a ruína nacional, não a solução. Essa afirmação também ignora a mudança social, aprisionando o mestiço no passado enquanto projeta o negro no futuro. A tese negligencia a experiência concreta de casais inter-raciais e seus filhos, classificados ora por categorias racistas, ora por conveniências de uma militância que hoje os exclui das políticas públicas.
O brasileiro celebra a parditude. Em dezembro de 2025, a trend “Sarará” exibiu o orgulho de casais inter-raciais diante da beleza ambígua de seus filhos mestiços. Esse movimento das redes mostra que o Brasil deseja respirar fora do binarismo. Em meu livro, Parditude: Um guia para te resgatar do limbo racial, busco dar voz às experiências desses milhões de brasileiros que habitam um não-lugar: o lugar da mestiçagem.







